Quando eu era pequeno nunca tive a permissão de ir a um funeral "isso é coisa para pessoas crescidas" dizia a minha Mãe, mas o certo é que sempre tive um verdadeiro fascínio pela Morte e pelas pessoas afectadas por ela. O Dia de Todos-ps-Santos era um dia em que eu via muita gente a ir aos cemitérios e onde havia um enorme comércio de flores mesmo ali à porta.
Quando o meu tio Max faleceu tudo mudou, pude ir pela primeira vez a um funeral. Eu sabia que a minha tia Feliciana gostava muito do seu marido, mas aqueles gritos dela naquela tarde chuvosa e cheia de vento cintilaram no ar e penetraram no coração de todos os presentes no cemitério de S. Domingos de Rana. A isso juntou-se um acontecimento hilariante, o vento levantou a sotaina do Padre e as folhas do livro que ele tinha voaram deixando o pobre homem completamente perdido. Estávamos muito tristes mas ao mesmo tempo ver o Padre atrapalhado foi das cenas mais cómicas que tive na vida. Quando o caixão foi levado à terra, a tia Feliciana gritava "Adeus meu querido Max, nunca mais te vou ver!", foi de tal forma impressionante que ainda hoje me emociono ao lembrar-me.
Entretanto tive a oportunidade de ir a diversos funerais e sempre me indignei ao ver a falta de sentimento dos Padres para com a família do defunto. Por diversas vezes chegavam tarde e a más horas, davam um cumprimento rápido à família chegada do defunto (quando o davam), a missa era dita num ápice e com sentimento fingido e a conta era mandada para casa. Estava feito o serviço. A funerária aparecia mesmo no fim da missa para ir buscar o caixão provocando um nó no exófago dos presentes, lá punham o caixão à pressa na carreta e ía-se a 20 ou 30 à hora para o cemitério. Se este fosse longe, "lá na terra", era um acelera que enjoaria qualquer falecido.
No cemitério eram feitos os últimos ritos, abria-se o caixão e deitava-se a cal, havia "o beijinho da praxe para quem queria" e enterrava-se a pessoa, não esquecendo de fazer o "feitio" com a terra assim que a cova estivesse tapada. Depois dava-se os pêsames à família do defundo e voltávamos à nossa vida.
Quando vim para a Bélgica estava muito curioso sobre como seria um funeral e quando a altura chegou fui surpreendido no bom sentido. A assistência pastoral era como em Portugal, quase mínima, chegando ver mesmo um Padre bêbado a celebrar a missa e a recusar mesmo ir à campa (no funeral da avó paterna da minha mulher), mas o que me sensibilizou bastante foi a atenção da agência funerária. A preocupação principal era a de acompanhar e confortar a família, amigos e conhecidos do falecido. Tudo era feito com um amor, carinho e atenção que me ultrapassaram toda a compreensão. Imediatamente decidi que era aqui na Bélgica que um dia quero ser sepultado. A forma como preparam o cadáver mostra um respeito como nunca vi antes, o acompanhamento, a organização do local onde o serviço religioso é feito, tudo é preparado e acompanhado ao mais pequeno detalhe.
Aqui um caixão nunca desce à terra em frente da família e amigos a não ser que estes explicitamente o solicitem. O responsável da funerária faz um pequeno discurso improvisado ali mas com palavras muito sábias, é enternecedor. Também não se vê o espetáculo horrível de abrir o caixão e deitar a cal à frente dos presentes. É tudo feito com uma reverência que comove qualquer pessoa.
Após o funeral a agência funerária acompanha as pessoas a uma sala alugada pela família (se esta assim o entender) onde coordenam o estacionamento dos automóveis e acompanham as pessoas até aos lugares onde se devem sentar para tomar um pequeno lanche ou uma bebida. Que diferente do nosso País! Aqui as pessoas choram mas nunca assisti a gritos nem a desmaios, mas isso faz parte da cultura de cada povo, cada um vê a morte à sua maneira, mas acho que, depois de ver os exemplos belgas, as funerárias em Portugal poderão melhorar os seus serviços.
PS. Ao escrever este post baseio-me aqui nos funerais a que assisti em Portugal entre 1981 e 1991. Com este post não pretendo atacar ou criticar as agências funerárias ou os seus funcionários, pretendo sim dizer que prefiro o modo como é feito um funeral aqui na Bélgica e quem sabe, dar "ideias novas" a uma actividade que merece todo o respeito e apreço da sociedade.
